A função dos armadores

Prezados leitores,

Refletindo sobre a atuação de Scott Machado, no domingo, contra o San Antonio Spurs, uma discussão me pareceu muito propícia: qual a verdadeira função do armador de uma equipe?

Na partida, o brasileiro destacou-se com 11 assistências em 23 minutos jogados. Brilhou menos pelos números – que são interessantes – e mais pela interessante e nobre função de fazer os outros protagonistas, afinal, para o grande público (e até mesmo para a súmula do jogo), quem pontua é que leva as grandes honras dos jogos.

Acredito que seja natural, admirar e reverenciar quem encesta, mas sempre tive na mente que quem organiza uma equipe e cria as situações para os companheiros também deveria ser valorizado. Por  vezes, ou pouco é. Ou não é.

Magic Johnson é para muitos o melhor armador de todos os tempos

Hoje em dia, temos duas correntes atuando na armação de jogadas nos jogos de basquetebol. De um lado, armadores tidos como clássicos, que preparam as jogadas para os companheiros, organizam seu time, fazem o balanço defensivo e são vitais ao ditar o ritmo das ações, aumentando ou diminuindo de acordo com o que processam do jogo. Nesta classe, tivemos nomes em um passado não tão distante, como Magic Johnson, Isiah Thomas, John Stockton, Rod Strickland, Mark Price e até os dias de hoje, Jason Kidd, Steve Nash, Rajon Rondo, Chris Paul, Deron Williams, Andre Miller, J.M. Calderon.

John Stockton, armador que me influenciou a jogar e estudar basquetebol

Nota necessária: não é porque organizam o time e, várias vezes, priorizam passar antes de pontuar que estes não saibam pontuar. Em alguns casos, temos aí armadores que tem o arremesso mais mortal de sua época, como Mark Price, John Stockton e Steve Nash. Máquinas de arremessar. Ou, em outros, com facilidade incrível de pontuar, como Thomas, Deron ou Johnson. Porém, todos, sem exceção, são armadores que fazem o time jogar, antes de fazer o seu jogo pessoal.

Chris Paul (NOLA, hoje no Clippers) e Rajon Rondo (Celtics), dois armadores que são considerados passadores e que fazem o time jogar de acordo com seu ritmo

Na outra ponta, temos e sempre tivemos armadores ultra agressivos em direção à cesta, sendo arremessando ou infiltrando. Não são armadores passadores por natureza. Normalmente, são pontuadores que conseguem organizar e armar, mas a grande produção vem da agressividade, por vezes exagerada. Nesta estirpe, temos caras que sabiam dosar um pouco melhor as aventuras ofensivas. No meu entender, com a maturidade e a queda física, estes armadores conseguem equilibrar melhor as ações ofensivas, sem perder a qualidade da definição das jogadas.

Vale ressaltar que o problema maior aqui não é o fato do armador tentar a cesta e pontuar escandalosamente, mas sim não ler o jogo e pouco criar para os companheiros. Afinal, por vezes, o armador é obrigado a escolher entre passar a bola e “fazer o jogo girar” ou ir para a cesta definir. É um tanto quanto complexo conseguir juntar as duas virtudes. Os que conseguem, claro, existem em uma quantidade miníma.

A ultra agressividade de Kevin Johnson, não o impediu de armar seu time

Com a característica de atacar a cesta, tivemos no passado recente nomes como Tim Hardaway, Kevin Johnson, Allen Iverson, Stephon Marbury, Steve Francis; e atualmente, Derrick Rose, Russell Westbrook, Tony Parker, Ty Lawson, Stephen Curry, entre outros.

Com o tempo, este grupo de atletas não tem mais a sua disposição a explosão física avassaladora para romper defesas. Se não tem um arremesso tão confiável, eles passam a ser passadores. Por isso, é tão importante ter a visão e a leitura de jogo para conseguirem se impor com o passar do tempo. Na última temporada, embora tenha feito apenas 1/3 dos jogos disponíveis, notei em Derrick Rose um amadurecimento neste ponto. Ao invés de partir para a cesta, abaixar a cabeça e dali resolver o que fazer – só passando em última instância -, ele já começava a infiltrar, trazer a marcação e passar. Ou seja, não forçava a definição de qualquer jeito. Outra função em que presenciei melhora foi na organização na meia quadra, buscando sempre fazer alguns companheiros jogarem ao invés dos mesmos se colocarem estáticos esperando alguma decisão do seu armador.

Derrick Rose (Chicago) e Russell Westrook (Oklahoma), expoentes da nova geração de armadores. Agressivos, velozes, saltadores e pontuadores

Nas finais da NBA, acredito que percebemos o quanto Russell Westbrook tem a melhorar no jogo de meia quadra. Creio que o armador já “dominou” o arremesso de média distância. E é vital ter um bom arremesso para conseguir ser o mais completo e mais difícil de marcar possível. Se o defensor tem a dúvida do que você irá realizar, é o primeiro passo para conseguir batê-lo. Ser previsível no basquetebol facilita todas as ações defensivas.

Clareando ainda mais as ideias, Steve Nash na última temporada teve à sua disposição um elenco considerado apenas razoável. Sem nenhuma grande estrela ao seu lado e sem um banco de reservas confiável, o armador liderou seu time até o final da temporada na corrida pelos playoffs, na qual o Suns falhou. Porém, o que parecia uma derrota coletiva foi uma verdadeira vitória. Nash fez com que seu time conseguisse produzir como equipe. Será que o resultado seria diferente se ao invés de fazer o time jogar, achar os melhores atletas colocados para os chutes livres, ele priorizasse pontuar?

Neste ponto, não sei. Porém, tenho a ideia de que Nash solucionou a limitação do seu elenco organizando situações pontuais para que cada atleta conseguisse render ao máximo dentro das suas qualidades. Se Channing Frye é um chutador de longa distância e que precisa de visão do aro para chutar, o armador por vezes conseguiu achá-lo de frente para a cesta e livre, com o tempo necessário para realizar seu arremesso. O mesmo vale para os outros atletas, que tiveram um rendimento excepcional com o veterano ao lado. Nash, por sua vez, continuou definindo jogadas quando necessário, com seu arremesso impecável e disposição de menino. Na temporada anterior, assistimos Jason Kidd fazer algo semelhante com o time campeão do Dallas Mavericks. Jogando para a equipe, por vezes nem pontuando, porém achando o melhor de cada companheiro. Eu chamo estes atletas de facilitadores.

Eles facilitam o jogo de todos, elevam atletas medianos para que os mesmos pareçam bons. Quantas vezes presenciei John Stockton passar a bola para atletas limitados ofensivamente, porém completamente livres e com visão do aro para poder realizar o melhor arremesso. Afinal, arremessar livre neste nível é praticamente cesta. Arremessar marcado e converter ou ter que criar a própria situação para jogadores com várias limitações é algo raríssimo de acontecer.

Entendo que o jogo de hoje pede atletas que consigam jogar acima do aro, com muitos saltos e infiltrações, colecionando faltas e cestas mais simples. Temos que ter em mente, porém, que este estilo de jogo (dentro da NBA) é um tanto quanto suicida. O número de lesões e o grau de esforço físico acumulado é monstruoso. Com o tempo, a tendência é que os mesmos caras que antes rompiam defesas inteiras não consigam realizar a toda hora esta tarefa. Mal comparando, estes armadores rompedores são como os running backs do futebol americano. Se você não está acostumado com a NFL, não se preocupe. O running back é aquele louco que tenta romper as defesas feitas por mamutes alinhados e que por vezes desaparece no meio das trombadas para sair esmagado no final das ações. Um running back tem média de vida baixa dentro da NFL. É um comparativo para estes armadores definidores e rompedores de defesas (exceto os chutadores), que invariavelmente tem carreiras abreviadas por lesões derivadas pelo excesso de “pancadaria” que sofrem ao infiltrar.

Por isso, eu acho que, embora sejam importantes pontuar e definir próximo da cesta, também é mais do que necessário que se poupem e aumentem o leque de opções de jogo. Fazer o time jogar, talvez, seja a função vital do armador e, depois, pensar num jogo de conseguir pontuar por ele mesmo.

Claro, posso estar errado. É apenas uma visão do jogo e das situações em quadra. No entanto, recomendo um armador que, ao meu ver, conseguiu juntar as duas vertentes com excelente equilíbrio e talvez por isso tenha sido um dos maiores de todos os tempos. Não vi muito dele, vi jogos completos no youtube ou baixados em sites especializados. Queria ter visto toda a carreira. Isiah Thomas talvez seja o armador principal que conseguiu combinar todas estas duas vertentes. Não tinha, é verdade, um chute de três pontos desenvolvido, mas compensava com toda sua criatividade, solidariedade e – quando necessário – definição.

Isiah Thomas, um expoente da armação, está entre os melhores da história

Se você é mais novo e não consegue ou nunca ouviu falar em Isiah, deixo estes vídeos para vocês. Para os que viram, sempre é bom relembra-lo:

- Final da Conferência Leste – 1989 – Jogo 1:

- Final da Conferência Leste – 1989 – Jogo 3:

- Final da Conferência Leste – 1989 – Jogo 6:

Após tudo isso, nos resta refletir será que existe uma vertente melhor? Ou ambas só são interessantes se utilizadas no momento certo?

Fica a questões para vocês discutirem !


21 comentários em “A função dos armadores

  1. Muito bom o artigo e armador para mim é o FIRST TOUCH, hoje em dia a NBA está carente dessa característica, porém a mídia destaca somente os que vão para o Drive. Veja o Stockton, gênio porém subestimado. Hoje os “novatos” Irving, Wall, Kemba Walker e Jennings” todos agridem o garrafão. Excesso dos que atacam e tem visão da quadra. Menos renomados Calderon é um que primeira passa, depois chuta ou ataca. Parecia que Session no Bucks seria assim mais ainda não vingou. Vamos ver o Nash nos Lakers já que tem muito cara para pontuar ele pode se dar bem nessa nova função, já que antes era protagonista.

  2. SEMPRE fui a favor de Armadores Puros.
    Reconheço o valor dos pontuadores, mas em minhas equipes SEMPRE vou preferir um “first pass”.

    Eu mesmo treinei basquete por anos, disputei torneios de base e tal e como armador, sempre dei preferencia a jogar pelos meus companheiros, não por mim.

  3. Prefiro mesmo o Rajon Rondo que vira e mexe ta por aí fazendo um triple-double. Mas sempre deixando seus companheiros fazerem a cesta com estilo !

  4. Henry, em relação ao Rose,nos primeiros jogos dele no Bulls ele sempre preferiu o passe ao chute. Com o passar do tempo ele se tornou mais agressivo, inclusive começou a chutar de 3 coisa que não fazia. Agora quando voltar da lesão sera interessante ver como ele se comporta, se continuara sendo o cara agressivo ou saberá dosar mais o seu jogo, como vc bem notou já havia dando sinais de evolução nessa parte. Isiah era fantástico mesmo, sofri muito com ele e o Pistons dos Bad Boys.

  5. Hoje na liga, não há espaço (entre os melhores) para aquele Rajon Rondo que fazia 3 pontos e 17 assistencias, ele só é um dos melhores porque evoluiu.

    Mas eu sou muito fã de Armadores que se preocupam em armar a jogada, comecei a acompanha basquete em 2004/2005, meu maior ídolo no esporte é Steve Nash. Mas temos que prestar atenção na evolução da liga. Assim como estão acabando com os Pivos, os Point Guards tambem estão sumindo. o Heat ganhou do Thunder jogando com uma formação com: SG, SG, SF, SF e PF. (Chalmers, Wade, Battier, James e Bosh) Os Jogadores são muito versateis atualmente

    • bem comentado, atualmente a liga esta indo para essa direção mesmo, um armador hj tem q ter condições d marcar um sf numa possivel rotação, coisa que no passado era impossível (tirando o Magic que era alto e a parte d todos os outros)

  6. Henrique, que artigo BOM!
    Foi ótimo ler e ficar Me questionando, comparando mentalmente os Armadores que vi… OTIMO TRABALHO, PARABENS!

    • nash naum er o melhor d tds os tmp, ele er um dos mehores. estranho vc naum defender o magic como o melhor d tds os tmps,afinal ele só defendeu os lakers.

  7. Jason Kidd é o melhor armador puro, não tem velocidade mais… mas suas assistencias … inclusive para ponte-aereas sao as melhores, bom defensor que marca até sg quando preciso,alem de quando ele chuta é certeiro. A dupla com Tyson Chandler…rendeu o titulo ao Mavs.

  8. sem querer falar quais são os melhores, pra mim, a palavra armador jah diz td, 1º: tem q priorizar os outros, se naum conseguir dar assistencia, ai sim vc define. pra mim westbrook e rose são espetaculares, mas eles primeiro pensam em defini e dps em passar, pra mim armador d vdd er kidd, rondo, chris paul, etc.

  9. Pra mim, esses armadores como Westbrook e Rose, tem características típicas de SG. Mas como são “baixos” são jogados pra armar e serem os PG da equipe.

  10. O Kendall Marshall, rookie do suns, é um armador clássico, vi uns jogos dele na ncaa e ele sempre prioriza o passe, na maioria dos jogos ele acabou com mais assistências do que pontos. Também enxerga muito bem o jogo e é muito inteligente, sou fã dele.

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